terça-feira, 31 de janeiro de 2017

A Evolução da Montagem – Parte 3


Hoje irei continuar a minha trilogia sobre a evolução histórica e técnica da montagem. Nesta terceira e última parte irei falar sobre as teorias soviéticas, e não só. Não seria possível atingir a linguagem audiovisual e cinematográfica que é conhecida em pleno século XXI se não fossem alguns dos grandes impulsionares da chamada escola soviética: Lev Kuleshov, Vsevolod Pudovkin, Sergei Eisenstein e Dziga Vertov. Estes estudiosos permitiram um avanço significativo graças aos seus estudos sobre as técnicas da montagem cinematográfica, expondo diversas teorias acerca das possibilidades narrativas, expressivas e plásticas deste recurso.

Lev Kuleshov nasceu em 14 de janeiro de 1899, em Tambov, foi um cineasta e um grande impulsionador das teorias cinematográficas e é considerado o pioneiro de toda a estética da montagem soviética graças à sua célebre experiência que ficou conhecida por “efeito Kuleshov”.

O “efeito Kuleshov” consiste na edição de vídeo em que o mesmo plano de um ator - Ivan Mozzhukhin -, com uma face inexpressiva, era intercalado por outros planos com diferentes assuntos (uma sopa, um caixão e uma mulher num sofá). Esta experiência permitiu demonstrar que a conjugação deste plano único com outros diferentes atribua significado ao espectador.

Com esta experiência Kuleshov demonstrou-nos que o espectador tem a impressão de que o rosto do ator tem expressões diferentes a cada momento, no entanto, o ator gravou essa cena uma única vez. Esta perceção deve-se à nossa interpretação com relação à cena apresentada após a exibição da cena estática do ator. Por outras palavras, podemos dizer que o sentido emocional de quem assiste a esta pequena montagem, se alterava em função do plano que se lhe seguia. O espectador encontrava assim um novo significado para uma mesma imagem: fome, tristeza, alegria, respetivamente. 


Uma outra grande experiência deste pioneiro foi a montagem de um outro pequeno vídeo em que vemos um homem e uma mulher a correr, e no último plano, os dois se abraçam. O mais interessante é que todas estas imagens foram filmadas em lugares e ocasiões diferentes. Aqui, o público fica com a impressão que tudo tinha acontecido no mesmo lugar e consecutivamente.

Podemos dizer que foram duas experiências que permitiram melhorar a narrativa da época e mostrar quais são os poderes de uma excelente montagem. O objetivo principal destas experiências consistiu em provar que uma imagem não tem sentido por si só, e sim a contextualização feita pela montagem que lhe atribui significação. Tornou-se possível a ligação de material sem nenhuma relação entre si e quando dois planos são colocados em conjunto, o significado pode surgir ou acentuar a diferença entre eles. O confronto destes planos propicia um terceiro nível de significado que é criado na mente do público.

Não é só, como diz o mestre do cinema Jorge Monclar: uma ideia da cabeça, uma câmara na mão porque senão será uma “miséria” na tela. Com estas experiências de Kuleshov podemos verificar que colocando em prática esta forma de montar o nosso filme permite o despoletar e dirigir emocionalmente o espectador e a criação de um universo único e inusitado para o nosso filme, independente do mundo real, a partir da articulação de realidades ontologicamente autónomas, mas inteligivelmente integradas.
Os estudos e experiências que Lev Kuleshov levou a cabo rapidamente foram aproveitados, exemplarmente pensados e praticados por outros grandes nomes do cinema mundial, um deles, foi Sergei Eisenstein um dos maiores criadores e teóricos da montagem. Eisenstein afirmou que a montagem foi estabelecida pelo cinema soviético como o nervo do cinema. Assumindo, assim, este recurso como absolutamente central na sua obra fílmica. Em 1925, Sergei Eisenstein dirige O Couraçado Potemkine e mostra que a montagem dos planos é o principal elemento responsável por dar sentido a um filme. 


Alguns anos mais tarde Orson Welles, um cineasta norte-americano, inova estas técnicas e adiciona no seu filme Citizen Kane a câmara subjetiva em elaborados movimentos; diferentes ângulos de enquadramento, flashbacks e vários pontos de vista para contar a história.

Em 1976 John G. Avildsen é o primeiro a utilizar o sistema Steadcam, que permite ao operador de câmara movimentar-se sem haver imagens tremidas. Esta tecnologia é implementada no filme Rocky Balboa.

A evolução tecnológica não fica por aqui, com o século XXI quase a chegar, é na década de 90 que se substitui a pelicula celuloide (o analógico) pela filmagem digital. As antigas moviolas, onde os filmes eram tradicionalmente montados, são substituídas pelo computador. Os atores começam a contracenar com imagens geradas em computadores: monstros, bruxas, cães falantes, etc.

Finalmente o século XXI chega e com ele vem outra inovação: foi em 2002, que com o filme Star Wars, Episódio II - Ataque dos Clones, de George Lucas, que toda a produção é realizada digitalmente.

E o resto vocês já sabem!!! Com a tecnologia digital todas as pessoas conseguem editar e produzir filmes digitalmente… Onde está a essência do filme como Lev Kelechov nos ensinou? Na mente de todo aquele que vê e tem a capacidade de juntar 2+2, e se me permitem, a soma não é 4! A soma é o conjunto das emoções que cada um de nós dá a cada cena misturada e remisturada no nosso pequeno e fantástico cérebro! E atenção se não há emoção, não há cinema. Se não há cinema - e muitas grandes produções não o são -, o problema não é do nosso amigo cérebro, e sim da infelicidade de quem o montou. Este aspeto psicológico deixo para os entendidos da psicologia.

Um dia ainda vou escrever aqui sobre isto mesmo: a psicologia da linguagem audiovisual. É que cada plano, movimento, ângulo e enquadramento de câmara tem uma definição psicológica pré-estabelecida e que todos os profissionais de cinema deveriam ser obrigados em saber… pois muito fazem filmes e não sabem. Isto fica para um outro dia.

sábado, 31 de dezembro de 2016

A Evolução da Montagem – Parte 2

Verificámos o mês passado que o ato físico da montagem, o processo de “corte e cola”, da película de filme surge com os primeiros filmes. Um desses filmes foi a demolição de um muro dos irmãos Lumière, mas a história da montagem não fica apenas por aqui. 

Faltava, então, ao cinema da época o sentido lógico da montagem, que consiste na utilização das diferentes distâncias, posições e movimentos de câmara que permite filmar acontecimentos e pessoas em diversas posições e ângulos. Graças a este estilo diversificado e moderno de cortar e colar é possível passar uma mensagem, explícita, sem ser preciso justificar por palavras o que queremos mostrar por imagens. 

Podemos resumir que a verdadeira essência da montagem de um filme está na diversidade de sentidos e mensagens que com ela conseguimos passar para o público. Mas como? Onde? E quando surgiu o sentido lógico da montagem? Sobre isto falarei hoje no meu post.

Georges Méliès foi um ilusionista e realizador francês que ficou famoso pelas suas produções de ilusionismos utilizando o vídeo. Ficou conhecido como o "pai dos efeitos especiais” e os seus trabalhos foram considerado os primeiros filmes de ficção científica.

Foi um dos que mais contribuiu para os desenvolvimentos técnicos - foi o primeiro cineasta a crias storyboards – e narrativos no cinema. O seu filme mais conhecido, realizado em 1902, é a Le Voyage dans la lune(Viagem à Lua). Foi um filme mudo inspirado por uma ampla variedade de fontes, incluindo o romance de Júlio Verne Da Terra à Lua.~

Aqui, é retratado a aventura de um grupo de astrónomos que viajam à Lua numa bala, exploram a superfície da Lua, escapam de um grupo de habitantes lunares, e retornam à terra com um prisioneiro. O elenco é constituído por atores franceses de teatro dirigidos pelo próprio Méliès, no principal papel do professor Barbenfouillis, e é filmado num estilo totalmente teatral.


Os filmes do início do século XX são mais elaborados, no que diz respeito à sua estrutura narrativa, que os primeiros filmes da história do cinema. Estes novos filmes passam a ter vários planos ligados entre si, e a filmagem assume uma relação direta com a montagem.

O americano Edwin Porter, influenciado pelo estilo documentalista dos irmãos Lumiére e as fantasias teatrais de Georges Méliès, começa a introduzir nos seus filmes planos com cortes de edição. Estes planos eram realizados em diferentes momentos e lugares para compor uma narrativa.

O primeiro filme em que colocou em prática este método foi, em 1903, no The Great Train Robbery, que tinha uma duração aproximadamente de 10 minutos. Além disto, este filme é considerado o primeiro grande clássico do cinema americano que inaugurou o género western. Edwin Porter teve um grande contributo em prol de uma maior clareza da narrativa.


Outro grande visionário, e sucessor de Edwin Porter, que muito contribuiu para enriquecer a linguagem narrativa cinematográfica foi David Wark Griffith. Foi um realizador de cinema, considerado o pai da montagem cinematográfica moderna, pois as suas contribuições foram essenciais para alterar a forma de fazer cinema. Conseguiu com o seu trabalho mostrar, mais do que Porter - que apenas mudava de plano por razões físicas –, como era exequível criar um maior impacto dramático, através da justaposição de planos. Tudo isto graças à sua ideia de usar a variação de planos para criar impacto emocional, através do grande plano geral, o close-up, o plano de pormenor de um objeto, a câmara subjetiva – o ponto de vista da personagem ou do ator –, o travelling – a deslocação da câmara de filmar no espaço –, entre outras grandes contribuições.

Com estas experiências conseguiu demonstrar que era possível ampliar o interesse do drama em determinada situação, o que levaria o espectador a envolver-se emocionalmente com o enredo. Marcel Martin vai mais longe afirmando, no seu livro Le langage cinématographique, que se David Wark Griffith não foi o inventor da montagem nem o close-up, uma coisa é certa, é o primeiro na história do cinema a conseguir com eles um “meio de expressão”.

Tudo isto é colocado em prática, em 1915, com o filme The Birth of a Nation e, em 1916, com Intolerance. Estes filmes foram considerados como os marcos históricos da montagem cinematográfica. A aplicação deste método de Griffith permitiu aumentar e enriquecer as possibilidades do relato cinematográfico. Nestes filmes foram usados todos os procedimentos de montagem desenvolvidos até então: os diversos enquadramentos, closes e planos fechados que destacam a ação.




Rapidamente o estilo narrativo de Griffith atraiu plateias, os seus filmes percorreram o mundo, chegando à União Soviética após a revolução de 1917. As suas produções usufruíram de um sucesso enorme junto do público, dos políticos e, sobretudo, dos novos cineastas.

Isto contribuiu para que em 1919 fosse criada a Faculdade de Cinema em Moscovo, e os seus métodos pedagógicos passaram pela análise das técnicas de Grifftith e que, consequentemente, contribuíram para o surgimento de várias teorias sobre a montagem cinematográfica.

Destas teorias soviéticas podemos destacar alguns grandes cineastas, mas sobre isto irei falar no meu próximo post. Desejo a todos os meus leitores um Feliz Ano Novo, um excelente 2017.

Um forte Abraço
Cláudio Almeida

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

A Evolução da Montagem – Parte 1

Hoje irei abordar o tema da montagem no cinema. A Montagem é um processo que consiste em selecionar, ordenar e ajustar os planos pré-gravados. O que seria da estética cinematográfica moderna se não fosse a edição? Vou mais longe. O que seria do cinema do século XXI se não fosse a existência da montagem? 

Para algumas pessoas a montagem e a edição é a mesma coisa. Eu prefiro, se me permitem, separar as duas. Considero a edição algo mais complexo que a montagem. A montagem, para mim, é uma etapa da edição. Além desta etapa, na edição, temos toda a sonoplastia que no final faz um todo. Portanto a edição é o aglomerado que inclui a montagem, a composição musical, a captação de sons ambientes, a colorização, entre outros. Mas hoje ficarei apenas pela montagem. Falarei numa outra oportunidade sobre as outras etapas da edição cinematográfica.

Os primeiros filmes não tinham montagem, eram todos gravados em um único plano. O suporte de gravação apenas permitia a captação de imagens de curta duração, pouco mais de 1 minuto. Acabava a bobina, acabava o filme. Isto acontecia por que além da curta duração de gravação do suporte, existia também a limitação da tecnologia ótica, pois ainda era muito embrionária. 

Recentemente escrevi um post sobre os pais do cinema, os irmãos Auguste e Louis Lumière, e os seus filmes. Se os primeiros filmes dos irmãos Lumière levaram ao nascimento do cinema, podemos, igualmente, afirmar que um dos seus filmes – Démolition d’un mur – foi o atear do rastinho da história da montagem cinematográfica. Apesar desse filme ainda não ter uma montagem complexa, como existe no século XXI, é considerado o embrião deste processo


No filme, vemos um muro a ser demolido e, depois de uns segundos de ecrã preto, esse muro é totalmente reconstruído diante dos nossos olhos. É a primeira vez que dois blocos de sentidos opostos são aglutinados e, apesar de se tratar do mesmo plano que passa repetido duas vezes, o vínculo lógico entre duas imagens está estabelecido. 

Apesar dos filmes, dessa época, serem composto num único plano fixo, eram também extenuadamente montados, pois, não havia necessidade em mexer com a parte física que implicaria o processo de emendar as partes da película. 

Além dos irmãos Lumière outro ícone da história da montagem foi Georges Méliès. Era um virtuoso ilusionista francês de sucesso que usava o corte e a dupla exposição para criar efeitos mágicos e criar mundos fantásticos. As pessoas apareciam do nada, desapareciam, cresciam assustadoramente aos nossos olhos, mas mesmo assim todas as imagens captadas eram sempre em um plano, em plano fixo. 

É com estes primeiros filmes que surge o ato físico da montagem, por outras palavras, o processo de corte e cola da película de filme. Mas ainda faltava um longo caminho a percorrer até ser possível existir algo mais próximo da realidade dos nossos dias. Faltava o sentido lógico da montagem. Que consiste na utilização das diferentes distâncias, posições e movimentos de câmara que permite filmar acontecimentos e pessoas em diversas posições e ângulos. 

Mas se o ato físico da montagem nasce com uma certa naturalidade no cinema, como já verificámos, o mesmo não acontece com o ato lógico da montagem. Este teve vários intervenientes ao longo da sua história. Mas deles falarei no meu próximo post.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

As Salas de Cinema e a sua Evolução Tecnológica

Como já verificamos anteriormente, a sétima arte nasceu uma arte globalizada, mas o que seria do cinema se não fossem as salas de exibição? Hoje irei falar sobre as Salas de Cinema e a sua Evolução Tecnológica.

A primeira sala de cinema, o Eden-Théâtre, foi uma iniciativa de Alfred Seguin, construída pelos arquitetos William Klein e Albert Duclos, e inaugurada a 07 de Janeiro de 1883. Uns anos mais tarde foi comprada por Soula Adelaide e o marido Raoul Gallaud, que eram amigos de Antoine Lumière. Foi aqui neste cineteatro francês, situada em La Ciotat no sudeste da França, que aconteceu a primeira exibição do mundo. Ainda hoje a está intacta, no estado original, esteve fechada durante 30 anos, mas em 2007 começou um processo de reforma que custou seis milhões de euros. Reabriu no dia 09 de Outubro de 2013.


De 14 de abril de 1900 a 12 de Novembro de 1900 foi realizada a Exposição Universal de Paris, uma exposição que servia para comemorar as realizações do século passado e para acelerar o desenvolvimento para a próxima. A feira que teve uma adesão de cerca 50 milhões de pessoas, exibia muitas máquinas, invenções e arquitetura que ainda hoje são universalmente conhecidas, entre elas: os motores a diesel, escadas rolantes, roda-gigante e o telegraphone (o primeiro gravador magnético de áudio, uma espécie de fonógrafo que se podia fazer funcionar à distância). Mas o mais importante para o cinema foi a existência um cinematógrafo que projetava numa tela gigante, com 21 metros de largura e 18 metros de altura, assistido por 1,5 milhão de pessoas.


A 19 de Junho de 1905 começam aparecer, nos EUA, as primeiras salas de exibição primitivas e pequenas, a preços acessíveis e baratos, que atrairiam milhões de americanos. Estas salas chamavam-se Nickelodeon e foram o primeiro tipo de espaço de exibição coberto dedicado exclusivamente ao cinema. Este nome deriva de duas palavras: do Inglês Nickel que era à época uma moeda de 5 cêntimos e do Grego Odeion que quer dizer teatro coberto. Todas as sessões eram pagas e o valor de entrada era 1 Nickel. Estas salas alteraram drasticamente as práticas de exibição dos filmes, bem como os hábitos de lazer de um grande segmento do público americano. A classe que mais usufruiu destas salas foi a classe trabalhadora, que era o público que não podiam despender muito dinheiro para comprar um bilhete. As Nickelodeons exibiam filmes de curta duração, cerca de dez a vinte minutos, com uma grande variedade de estilos e temas. Mas elas foram desaparecendo à medida que as cidades se expandiam e a indústria proporcionava a consolidação de salas de cinema maiores, mais confortáveis e mais adequadas à exibição dos filmes.

Em 1914, ano que deu início a Primeira Guerra Mundial, cai a produção cinematográfica europeia e os filmes americanos começam a ganhar terreno. Graças a isso, Nova York assiste à inauguração da sua primeira grande sala de projeção, com capacidade para 3.300 lugares. Alguns anos mais tarde, em 1948, os grandes estúdios são obrigados por lei a vender as suas salas de cinema e passam a dividir o poder e os lucros com os exibidores.

Os princípios tecnológicos da televisão foram iniciados no final de 1920. Entre 1928-1934 foram vendidos comercialmente os primeiros televisores, no Reino Unido, Estados Unidos e União Soviética. A comercialização de televisões a cores, a partir de 1953, aumentou ainda mais a popularidade dos aparelhos de televisão. A sua rápida expansão levou à queda nas receitas das salas de cinema, e os grandes estúdios, para combater esta realidade, apostam na inovação de novos sistemas, como é o caso do Cinema.

Em 1952, foi criado processo cinematográfico de widescreen que trabalha com imagens projetadas simultaneamente por três projetores de 35 mm sincronizados para um ecrã de proporções gigantescas e extremamente curva, com um arco de 146°.


A projeção em vez de ser feitas numa superfície contínua como a maioria dos ecrãs, era feita de três cabines de projeção, postas na mesma disposição que as câmaras, para uma tela extremamente curva. Era constituída por centenas de tiras verticais individuais de tecido perfurado, cada uma com  7/8 polegadas (aproximadamente 22 mm) de largura. A palavra "Cinerama" deriva da junção de cinema com panorama, a palavra "panorama" vem das palavras gregas "pan", que significa tudo, e "orama", que se traduz naquilo que é visto, uma visão, ou um espetáculo. 

Foram usadas três câmaras com rolo de 35 mm equipadas com lentes de 27 mm, que é aproximadamente o comprimento focal do olho humano. Cada câmara filmava um terço do objeto filmado, uma a parte esquerda, outra a parte direita e uma terceira filmava apenas o centro do plano. Foram montadas com uma amplitude entre elas de 48º, o que davam no total uma cobertura do assunto filmado de 146º. As imagens foram captadas e projetadas a 26 frames por segundo em vez dos habituais 24. O primeiro filme a ser exibido foi a 30 de Setembro de 1952, no Teatro Broadway, em Nova Iorque.

Spyros P. Skouras, presidente da 20th Century Fox, criou em 1953 o sistema CinemaScope. Era um processo em que uma lente anamórfica distorcia e aumentava a imagem projetada em telas largas. Este evento foi uma resposta ao princípio dos processos de "realismo" mais conhecido como Cinerama. Mas apesar disso a Cinerama foi pouco afetada pela CinemaScope.

Em 1954 os engenheiros da Paramount Pictures criaram um sistema chamado de VistaVision. Com este sistema os técnicos da Paramount pretendiam ampliar a área de projeção, ao rodar a pelicula de filme no sentido horizontal. A diferença entre esta e o CinemaScope é que a VistaVision não usava lentes anamórficas e o processo da Paramount consistiu em alterar a posição das peliculas dentro da câmara como podemos ver nas imagens seguintes.


Em 1963 a AMC Theatres criou a primeira Cinema Multiplex, que eram complexos com várias salas pequenas, exibindo uma maior diversidade de filmes. Os seus criadores acreditavam que se existisse num único edifício duas salas de exibição, adicionando um segundo ecrã operado pela mesma equipa, a receita poderia dobrar. 

Entre o dia 15 de março e 13 de setembro de 1970 foi realizada em Osaka, Japão, uma feira mundial que tinha o tema "Progresso e Harmonia para a Humanidade". Aqui foi visualizado o primeiro filme em IMAX. No ano seguinte no cinema Cinesphere, no Ontario Place, Toronto foi realizada a estreia da primeira instalação permanente do sistema IMAX, com a exibição do filme North of Superior. Esta sala ainda hoje está em operação.

Em 1970, a Philips desenvolveu um formato de vídeo cassete caseiro feito especialmente para uma emissora de televisão e dois anos depois foi disponibilizada a venda ao público. A Philips chamou este formato "Video Cassette Recording", mais conhecido como "N1500". Graças a estes equipamentos é possível que o cinema entre nas casas das pessoas. São criadas, se assim posso dizer, o home cinema. Graças a este facto os filmes Guerra nas Estrelas (1977) e Tubarão (1975) arrecadam mais de 100 milhões de dólares em aluguer de cassetes. Os Videoclubes espalham-se por todos os cantos, e o sistema VHS, de custo reduzido, se impõe sobre o Betamax, de melhor qualidade. Em 1933 os gravadores de VHS já estão em mais de 3/4 dos lares norte-americanos com televisão.


É na década 80 que os drive-ins praticamente chegam ao fim, dando lugar a pequenas salas de exibição, disseminadas pelos shoppings-centers. O primeiro drive-in é de 1933 e localizava-se em Camden, New Jersey. 

Mas a evolução não fica por aqui. Em 1997 surge o DVD, disco versátil digital, um sistema que permite a reprodução doméstica de som e imagem em qualidade muito superior ao VHS. Mas se as pessoas acham que o DVD surgiu do nada, como uma flash, enganam-se. A evolução do DVD confunde-se com a história do cinema. A tecnologia de gravação ótica foi inventada por David Paul Gregg e James Russell em 1958 mas foi patenteada em 1961. 

Um formato de disco ótico de dados, conhecido como LaserDisc, foi desenvolvido nos Estados Unidos, mas chegou ao mercado em 1978. Era um formato de disco muito maior do que os formatos posteriores. Devido ao alto custo de leitores e discos, a adesão por parte do consumidor de LaserDisc foi muito baixa, tanto na América do Norte como na Europa. Mas esta evolução permitiu que o consumo de cinema em casa fosse cada vez maior, estava assim criada a sala de cinema caseira. A venda de DVDs torna-se, então, a maior fonte de renda da indústria cinematográfica, superando bilheterias e cópias VHS. 

Em 1994 é criado o primeiro browser capaz de realizar navegações de forma simples, por meio de links, como se usa atualmente, popularizando o uso da Internet fora do meio académico. Em 1999 a NBTel (agora conhecida como Bell Aliant) foi a primeiro a implantar comercialmente o sistema de transmissão de televisão via internet (IPTV), utilizaram o Alcatel 7350 DSLAM e middleware criado pela TV iMagic (de propriedade da empresa-mãe da NBTel Bruncor). Este sistema permite a interação dos usuários, a escolha, a interrupção ou avanço de conteúdo, ou mesmo a aquisição de produtos. 

Hoje em dia a conexão de Internet em banda larga atinge um desempenho suficientemente bom para permitir que imagens e sons de alta qualidade sejam compartilhados entre os internautas. E graças a esta realidade surge o YouTube, mais uma forma de conseguirmos ver em qualquer lugar um bom filme. Nasce assim a sala de cinema móvel. Mas não só, a pirataria, a Internet, o download, a exibição on-line e os aparelhos móveis de exibição de imagens (ipod, mp4, telemóveis) levam o cinema a públicos inimagináveis até então. 

Estes contínuos e interruptos avanços tecnológicos fazem com as câmaras digitais de vídeo, leves, ágeis e de baixo custo, se aproximam em qualidade às imagens produzidas em película. Graças a isso, surgem centenas de produtores independentes, que, graças às novas tecnologias, podem reduzir os custos de produção e ampliar os circuitos de exibição dos seus filmes.

Os vídeos amadores passam a competir pela atenção de uma plateia global. Webcams e câmaras de telemóveis passam a ser consideradas instrumentos criativos de produção de vídeo. O telemóvel surge, assim, como a quarta tela, uma opção para além do cinema, televisão e computador. Além disso, o pequeno gadget suíço – o telemóvel –, passa a ser considerado um instrumento criativo de produção de vídeo, pois permite a criação de vídeos amadores e, que estes passem a competir pela atenção de uma plateia global.

Resultado disso, em 2005, é criado o Festival Pocket Films, que apresenta ficções e documentários filmados por telemóveis em Paris. Em 2007, O Sundance Institute e a GSM Association apresentam cinco curtas-metragens produzidas para exibição em telemóveis, num festival realizado em Barcelona.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

A Rápida Globalização do Cinema

O mês passado falei da primeira sessão pública de cinema, a 28 de dezembro de 1895, considerada a data mais importante para o nascimento daquela que viria ser considerada a sétima arte, bem como os seus impulsionadores. Nesse mesmo dia os irmãos Lumière utilizaram a película de filme de 35 mm que se movia à velocidade de 16 frames por segundo, tornando-se a medida padrão para todas as produções cinematográficas. Contudo, a história desta arte não fica apenas pelo sucesso desse acontecimento marcante que fez com que os irmãos ficassem conhecidos como os pais do cinema moderno.

Rapidamente a França e Nova York tornaram-se os grandes centros cinematográficos, e as francesas Gaumont e Pathé, as maiores produtoras do mundo. Nos Estados Unidos da América, a Edison Company disputava o mercado cinematográfico com a Biograph e a Vitagraph.

Os primeiros filmes desta época, e durante muitos anos, foram os filmes mudos, mas apesar de tudo, estes não eram assistidos em silêncio. As suas cenas eram acompanhadas por música tocada ao piano, e muitas vezes, por música ambiente, executada por orquestras.

Incluíam legendas, em fundo preto, que explicavam as ações e diálogos dos personagens. Muitas vezes também era comum um narrador explicar a história ao público enquanto as cenas eram projetadas.


Isto permitiu que a expressão cinematográfica se tornasse rapidamente um fenómeno global. Por quê? Porque como os diálogos eram escritos, não falados, era possível que o filme fosse traduzido em qualquer língua. Um filme que era realizado na França facilmente poderia ser exibido na Turquia, pois só era necessário mudar as legendas que apareciam sobre um quadro preto.

Hoje fico por aqui, o essencial está dito, podemos compreender que o cinema foi a obra de arte que já nasceu globalizada. Internacionalmente compreendida e amada desde muito cedo. Mas sobre a história desta arte que apaixona todas as pessoas, falarei num próximo post. 

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

28 de dezembro de 1895 : Nasce o cinema, Nasce a sétima arte

Como verificámos até aqui o cinema não teve só um inventor, sofreu um longo processo de evolução. Um dos grandes contributos foi a invenção da fotografia. Mas, o mais importante para o desenvolvimento do cinema tal como o conhecemos hoje, ou seja, a sétima arte, foi a criação do cinematógrafo, dos Irmãos Lumière, em 1895. Este é considerado um aperfeiçoamento do cinetoscópio de Thomas Edison (em 1888).

Mas quais são as diferenças entres os dois dispositivos? A maior diferença entre eles é o número de pessoas, em simultâneo, que poderiam assistir às imagens projetadas. O cinetoscópio apenas permitia uma pessoa de cada vez, pois era necessário olhar para o interior de uma câmara escura, por meio de um orifício, para observar as imagens. Ao contrário do cinematógrafo em que a experiência visual proporcionada podia ser feita coletivamente.

Thomas Edison não chegou a patentear o cinetoscópio possibilitando que outros inventores pudessem aperfeiçoarem o seu modelo. E foi o que aconteceu em 1892 pelo francês Léon Bouly. A partir do cinetoscópio, Bouly desenvolve o cinematógrafo, um protótipo que conseguia gravar e projetar as imagens numa parede, mas infelizmente por não possuir recursos financeiros não conseguiu registar a patente. O cinematógrafo viria mais tarde a ser patenteado pelos irmãos Lumière, que com ele começaram a fazer as primeiras experiências cinematográficas. 

Em 28 de dezembro de 1895 em Paris, na cave do Grand Café, considerada a primeira sala de cinema do mundo, nasceria o que hoje conhecemos como a arte cinematográfica. Nesse dia os irmãos Auguste e Louis Lumière realizariam aquela que foi a primeira exibição pública, e paga, do mundo do cinema. 

Foi exibido uma série de dez filmes, com a duração de 40 a 50 segundos cada um, mas os filmes que ficaram para a história foram apenas dois: “A chegada do comboio à Estação Ciotat” e “A saída dos operários da Fábrica Lumière”. Apenas pelos títulos dos filmes conseguimos compreender muito bem qual teria sido o seu conteúdo. Falarei um pouco mais sobre cada um deles.


O Filme “A chegada do comboio à Estação Ciotat” é um pequeno filme com a duração de apenas 44 segundos, foi todo gravado em plano geral, e retrata a chegada de um comboio a uma estação de caminhos-de-ferro.


“A saída da Fábrica Lumière em Lyon” tem 48 segundos, e também é gravado todo em plano geral, e mostra a saída dos funcionários do interior da empresa Lumière, na cidade de Lyon, na França.


Nascia assim o cinema como hoje conhecemos. Uma arte de massas, um espetáculo coletivo e um sucesso global. Com os irmãos Lumière também nasceria as primeiras “direções cénicas” para o cinema, os pais do cinema não ficariam por aqui… Esta dupla continuaria a fazer mais filmes e muitos deles registavam cenas do quotidiano.


Desde uma brincadeira de uma criança a um homem que regava as plantas, mas que no fim é regado pela mangueira; um casal que dá comida ao seu pequeno/grande bebé; um grupo de amigos que jogam às cartas ou até mesmo a demolição de uma parede. São exemplos de outros filmes dos irmãos Auguste e Louis Lumière e que nos demonstra que a “direção cénica” para o cinema aparece ao mesmo tempo que o cinematógrafo.

Mas se os meus caros leitores acham que a evolução do cinema fica por aqui é uma pura ilusão. Até aqui só era possível fazer, com o cinematógrafo, apenas um tamanho de plano: o plano geral/long shot. Sobre o que veio possibilitar a grande variação de enquadramentos, e a magia do cinema moderno, falarei num outro post.

A seguir deixo-vos todos os vídeos da autoria dos pais da sétima arte.